Toda xícara de chá branco, preto ou verde vem da mesma planta, a Camellia sinensis, um arbusto asiático perene da família Theaceae (NLM, 2026). A camomila, o capim-limão e o hibisco, cujas infusões também atendem no Brasil pelo nome de chá, pertencem a outras espécies, ficam fora do escopo da norma internacional que classifica os tipos de chá (ISO, 2023) e, no rigor técnico, são infusões. A distinção parece coisa de especialista, mas organiza a história contada aqui, da lenda chinesa aos chazais do Rio de Janeiro e do Vale do Ribeira e, por fim, à erva-mate, a infusão herdada dos guaranis.

A Origem do Chá na China
A versão mais repetida sobre o nascimento do chá é uma lenda. Por volta de 2737 a.C., folhas de uma planta silvestre teriam caído por acaso na água que fervia para o imperador Shennong, o “Divino Fazendeiro” da mitologia chinesa, e ele teria apreciado a bebida. O sinólogo Victor Mair, da Universidade da Pensilvânia, escreve que não há um fiapo de prova de que Shennong tenha existido (Mair, 2016).
A associação entre Shennong e o chá aparece com todas as letras no Chájīng (茶經), o “Clássico do Chá”, escrito por Lu Yu em meados do século 8, cerca de três milênios e meio depois da data atribuída ao imperador. Para os estudiosos, a ligação serviu para dar à bebida uma origem na alta antiguidade chinesa, sem valor de registro histórico, e o mérito sólido de Lu Yu (733-804) é outro: seu livro é reconhecido como o primeiro tratado dedicado inteiramente ao chá, do cultivo ao preparo (Mair, 2016).
Uma das evidências físicas mais antigas e mais bem documentadas apareceu em 2016, quando pesquisadores chineses e do University College London analisaram restos vegetais do mausoléu do imperador Jing, da dinastia Han Ocidental, morto em 141 a.C. e sepultado perto da atual Xi’an. Cafeína, cristais de oxalato de cálcio característicos do gênero Camellia e teanina confirmaram que eram folhas de chá com cerca de 2.100 anos, apresentadas pelos autores como o registro material mais antigo da bebida conhecido até então (Lu et al., 2016).
Em livro de 2015 resenhado por Mair, o historiador James A. Benn mostra que, durante a dinastia Tang (618-907), o chá deixou de ser sobretudo uma decocção amarga, de uso medicinal, para virar costume refinado em escala nacional, e resume a virada numa frase: “tea was essentially a Tang invention”, ou seja, o chá foi essencialmente uma invenção Tang, em tradução nossa (Mair, 2016). Esse requinte sobreviveu num conjunto completo de utensílios de chá em ouro e prata dourada, lacrado como oferenda imperial entre 873 e 874 na cripta do Templo Famen, perto de Xi’an, e encontrado por arqueólogos em 1987 (Kan, 2014).
A Expansão do Chá pela Ásia
O mesmo estudo de 2016 identificou resíduos de chá num túmulo de Ngari, no Tibete ocidental, datado dos séculos 2 e 3 d.C., prova de que a folha já cruzava o Planalto Tibetano rumo à Ásia Central por um ramo da Rota da Seda. Isso aconteceu séculos antes da famosa Estrada do Chá e dos Cavalos, aberta no século 7, por onde o chá chinês era trocado por cavalos tibetanos e mongóis (Lu et al., 2016).
A Coreia conheceu o chá ainda no século 7, e segundo o Samguk sagi, crônica de 1145, o cultivo começou com sementes trazidas da China Tang em 828. No período Goryeo (918-1392), o chá virou peça central da cultura da nobreza, com uma repartição da corte só para servi-lo (Song, 2017).
No Japão, o chá entrou pelos mosteiros. Monges budistas chineses o tomavam com fins medicinais e para espantar o sono na meditação, e o japonês Kūkai, que estudara na China, voltou em 806 com um bloco de chá verde para a corte (Seco, 2021). O passo decisivo veio em 1191, quando o monge zen Myōan Eisai (1141-1215), fundador da escola Rinzai, regressou da China com sementes de chá e o método de preparo do chá verde em pó, o matcha, e escreveu depois o Kissa Yōjōki, obra central para a cultura do chá no arquipélago (Seco, 2021; Mair, 2016).
A cerimônia do chá, o chanoyu, foi codificada entre os séculos 15 e 16 por mestres como Murata Shukō (1423-1502), que defendeu a simplicidade, e Takeno Jōō (1502-1555), que trouxe a estética do wabi, a beleza rústica e humilde. Sen no Rikyū (1522-1591), tido como pai da cerimônia moderna, uniu o wabi ao sabi e fixou o desenho da casa de chá, os procedimentos e os utensílios seguidos até hoje, e sua sala Taian, de 1582, ainda existe perto de Kyoto (Seco, 2021).

A Chegada do Chá à Europa
A rota marítima do chá passou primeiro pelas mãos dos portugueses, que a partir de 1557 contaram com uma base comercial em Macau, concedida pela dinastia Ming, de onde seguiam para Goa e Lisboa almíscar, ouro, pérolas, porcelana e seda, além do chá, que interessava particularmente aos europeus (Cartwright, 2021). Os holandeses fizeram da folha um negócio, e no começo do século 17 navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais, a VOC, levaram a Amsterdã as primeiras folhas de chá verde (Wikipedia, 2026a). A data mais repetida é 1610, com um carregamento saído do entreposto japonês de Hirado, mas a fonte consultada que a registra com essa precisão, uma galeria de antiguidades de Amsterdã, não cita documento de época (Aronson, 2026).
Na Inglaterra, o chá circulava antes mesmo de a Companhia Inglesa das Índias Orientais encomendá-lo. Em 25 de setembro de 1660, o cronista Samuel Pepys anotou em seu diário que mandara buscar “a cup of tee (a China drink)”, ou seja, uma xícara de chá, bebida chinesa que nunca havia provado (UKTIA, 2026a). A data desmonta uma das histórias mais contadas sobre o chá inglês, a de que a princesa portuguesa Catarina de Bragança o teria levado ao país, onde chegou em 13 de maio de 1662 para se casar com Carlos II. Segundo a UK Tea & Infusions Association, entidade britânica do setor, não é verdade que ela tenha introduzido o chá, embora tenha ajudado a transformá-lo em moda, primeiro na corte e depois na aristocracia (UKTIA, 2026a). O tema segue em debate, e um artigo acadêmico de 2021, de Susana Varela Flor, revisa criticamente as fontes primárias que ligam a rainha ao chá na Inglaterra Stuart (Flor, 2021).
A Companhia, que detinha desde 1600 o monopólio do comércio britânico com as Índias Orientais, fez sua primeira encomenda em 1664, 100 libras-peso de chá da China, e esse monopólio, somado a impostos altos, mantinha o produto caro e alimentava o contrabando (UKTIA, 2026b). Em 1773, para socorrer a Companhia endividada, o Parlamento aprovou o Tea Act, que lhe permitiu vender chá diretamente às colônias americanas por meio de agentes próprios, sem passar pelos comerciantes locais, num mercado onde valia um imposto de 3 pence por libra-peso (UKTIA, 2026c).
A resposta veio na noite de 16 de dezembro de 1773, quando colonos subiram a bordo de três navios no porto de Boston e jogaram ao mar 342 caixas de chá da Companhia, segundo a contagem mais citada, em protesto contra um imposto votado por um Parlamento no qual as colônias não tinham representação. Londres reagiu em 1774 fechando o porto até que o chá fosse pago, e o episódio, o Boston Tea Party, é visto como um dos estopins diretos da Revolução Americana (NPS, 2025).

O afternoon tea é da era vitoriana, e a tradição o atribui a Anna Maria Russell, sétima duquesa de Bedford, que por volta de 1841 passou a pedir chá e um lanche no meio da tarde para atravessar o longo intervalo até o jantar, hábito que se consolidou a partir da década de 1860 (UKTIA, 2026d). A paternidade é contestada, e a historiadora Julia Skinner admite que a refeição já existisse antes da duquesa ou que ela apenas tenha formalizado um costume informal (Wikipedia, 2026b).
O Chá no Brasil: Documento e Esquecimento
D. João VI e os Primeiros Chazais do Rio de Janeiro
O chá chegou ao Brasil com a corte portuguesa. Em 13 de junho de 1808, o príncipe regente D. João, futuro D. João VI, mandou criar no Rio de Janeiro um Jardim de Aclimatação, que em 1811 se tornaria o Jardim Botânico, e o chá foi introduzido ali em 1810, segundo o pesquisador Marcelo Alves Cerdan, da Unesp. O conde de Linhares sugeriu contratar 2 mil colonos chineses para a lavoura, mas vieram cerca de 400 (Cerdan, 2019). As fontes divergem, com o contingente chinês entre 100 e 400 pessoas e o ano de introdução entre 1808 e 1814, e nenhum documento de época localizado para este texto resolve a dúvida. O testemunho mais próximo é o da viajante britânica Maria Graham, que nos anos 1820 registrou que o rei destinara o jardim, acima de tudo, “para o chá, que ele mandou vir da China” (Cerdan, 2019).
D. João isentou de taxas alfandegárias o material ligado ao cultivo e criou medalhas para os teicultores, mas a lavoura perdeu seu principal apoio quando ele voltou a Portugal, em 1821. Frei Leandro do Sacramento, diretor do Jardim Botânico a partir de 1824, retomou os ensaios e enviou sementes a outras províncias, e em 1825 o pintor Johann Moritz Rugendas registrou cerca de 6 mil arbustos à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas (Cerdan, 2019). A presença chinesa ficou gravada na paisagem carioca: o mirante da Vista Chinesa, na Floresta da Tijuca, foi erguido em 1903 em homenagem aos chineses que vieram cultivar chá (Diário do Rio, 2026).

O Breve Ciclo do Chá Paulista no Século 19
Em São Paulo, levantamentos de 1851 e 1852 contavam de 32 a 37 fábricas de chá em cidades como Atibaia, Itu, Porto Feliz e São Roque. A província exportou 3.209 arrobas de chá em 1857/1858, mas o produto já não tinha valor registrado em 1862/1863, enquanto o café crescia, e em 1873 só Itu ainda aparecia como produtora no almanaque provincial (Cerdan, 2019). Uma tese de 1955, inédita e citada por pesquisadoras da UFMG, traz dados que pedem confirmação: o chá brasileiro teria ficado em segundo lugar numa exposição em Viena, em 1873, e a produção teria caído a níveis insignificantes depois da abolição da escravidão, em 1888 (Paganini-Costa; Carvalho-da-Silva, 2011).
O Vale do Ribeira e a Herança Japonesa
O capítulo mais duradouro foi escrito por imigrantes japoneses, a partir da colonização planejada do Vale do Ribeira, iniciada em 1912 e 1913. Registro é reconhecida como a primeira colônia japonesa planejada e consolidada do país e foi escolhida em 1918 como sede da companhia que conduzia a colonização na região (Aoki; Lima, 2011). O pioneiro do chá no município foi o imigrante Torazo Okamoto, que plantou as primeiras sementes (Aoki; Lima, 2011), e a versão de que ele teria trazido do Sri Lanka, em 1913, mudas da variedade Assam vem de uma reportagem da Assembleia Legislativa de São Paulo, sem confirmação nas fontes acadêmicas consultadas (Alesp, 2023).
Os primeiros ensaios datam de 1918, mas o cultivo comercial ganhou corpo nos anos 1930, depois da derrocada do café na região, e chegou ao mercado externo em 1960. Dez anos depois, Registro produzia 7 milhões de quilos de chá, contra 2,4 milhões de quilos de palmito e 800 mil de arroz (Aoki; Lima, 2011). Entre 1930 e 1990, a teicultura do Vale envolveu mais de 1.500 produtores, ocupou cerca de 5 mil hectares e abasteceu sete fábricas (Resende et al., 2024). Segundo a Assembleia Legislativa paulista, a cidade foi pioneira na produção de chá preto na América Latina e exportou cerca de 90% de sua produção histórica, e uma lei estadual de 1984 a declarou Capital Estadual do Chá (Alesp, 2023).

Um Capítulo Quase Esquecido
O declínio veio nos anos 1990, puxado por problemas de manejo e, sobretudo, pela defasagem cambial que inviabilizou as exportações (Resende et al., 2024), além da concorrência de países como a Argentina (Alesp, 2023). A fábrica Agrochá, que chegou a vender quase 60% do que produzia ao Reino Unido, fechou em 2000 (Aoki; Lima, 2011). Na série do IBGE, porém, o tombo no volume colhido só aparece depois da virada do século: a colheita de Registro ainda somava cerca de 24 mil toneladas de folha verde de chá em 1990 e quase 25,9 mil em 2000, mas caiu para 450 toneladas em 2015 e ficou em torno de 150 toneladas por ano entre 2019 e 2024, uma redução superior a 99% (IBGE, 2026).
Mesmo assim, o município exportou mais de US$ 68 milhões em chá entre 1997 e 2023, embora banana e palmito tenham assumido a liderança agrícola local (Alesp, 2023). Algumas famílias retomaram o cultivo, como os Yamamaru, de volta ao chá desde 2014 em sistema agroflorestal (CNA, 2023). Segundo reportagem da Band, a produção comercial de chá verdadeiro no país está hoje nas mãos de três famílias e uma empresa familiar, todas de origem japonesa e no interior paulista, e a Associação Brasileira de Chá estima a área cultivada em cerca de 218 hectares, com 1,8 mil toneladas por ano (Band, 2024).
Chá ou Infusão? A Diferença Está na Planta
No Brasil, quase toda bebida de planta feita com água quente leva o nome de chá, mas a norma ISO 20715:2023, que classifica os tipos de chá, parte exclusivamente do processamento das folhas de Camellia sinensis e deixa fora de seu escopo as infusões de outras plantas e de frutas (ISO, 2023).

No comércio especializado, é comum separar três termos, como faz o glossário da importadora americana Upton Tea Imports: chá é a bebida feita com folhas processadas e secas da Camellia sinensis; infusão de ervas usa partes de outras plantas e pode conter cafeína, como a erva-mate, o guaraná e a guayusa; e tisana é a infusão vegetal sem cafeína (Upton Tea Imports, 2024). Na Índia, a distinção tem força de lei: em dezembro de 2025, a autoridade de segurança alimentar do país, a FSSAI, lembrou às empresas que o regulamento indiano de 2011 reserva o termo “tea” às bebidas de Camellia sinensis e classificou como rotulagem enganosa os produtos vendidos como chá de flores, de hibisco ou de rooibos (Business Standard, 2025). Por isso, neste texto, chá é sempre Camellia sinensis, e as demais plantas aparecem como infusões, numa diferença botânica que não envolve juízo de qualidade.
Os Seis Tipos de Chá Verdadeiro
A norma ISO reconhece seis tipos de chá, todos da mesma planta e separados pelo processamento: amarelo, branco, escuro (categoria que inclui o pu-erh), oolong, preto e verde (ISO, 2023). Uma revisão de 2022 no Journal of Food Science aponta a oxidação como fator central, já que o chá verde sofre oxidação mínima e retém muitas das catequinas originais da folha, o oolong fica no meio do caminho e o preto passa por oxidação extensa (Wong et al., 2022). Na degustação profissional, estima-se oxidação mínima nos chás branco e verde, entre 10% e 80% no oolong e quase completa no preto, enquanto o pu-erh passa ainda por fermentação microbiana e pode envelhecer por décadas (Professional Tea Taster, 2026).
Infusões Populares e Seus Nomes Científicos
Nas infusões mais consumidas no Brasil, o nome popular costuma confundir, e o científico desfaz a dúvida:
- Camomila (Matricaria chamomilla L.): nome aceito pelos Jardins Botânicos Reais de Kew, que consideram Matricaria recutita um sinônimo (Kew, 2026a).
- Capim-limão (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf): chamado também de capim-santo e, em muitas regiões, de erva-cidreira, é nativo do sul da Índia e do Sri Lanka (Kew, 2026b).
- Erva-cidreira (Melissa officinalis L.): também chamada de melissa, é da família Lamiaceae, nativa da região que vai do Mediterrâneo à Ásia Central, e divide o nome popular com o capim-limão e outras plantas, embora seja outra espécie (Kew, 2026c).
- Gengibre (Zingiber officinale Roscoe): nativo da faixa que vai do leste do Himalaia ao centro-sul da China (Kew, 2026d).
- Hibisco (Hibiscus sabdariffa L.): também chamado de vinagreira, tem o nome científico registrado no Índice Internacional de Nomes de Plantas a partir da descrição feita por Lineu em 1753 (IPNI, 2026).
- Hortelã (gênero Mentha L.): reúne de 18 a 24 espécies, conforme a fonte, e as mais usadas em infusões são a hortelã comum (Mentha spicata) e a hortelã-pimenta (Mentha × piperita) (Kew, 2026e).
A Erva-Mate, Herança Guarani
Pelo mesmo critério, a bebida de folhas mais enraizada no Sul do país também não é chá. A erva-mate, Ilex paraguariensis A.St.-Hil., é da família Aquifoliaceae e nativa de uma área que vai do Brasil ao nordeste da Argentina, além do Paraguai e do Uruguai (Kew, 2026f). É uma infusão de ervas com cafeína, como o guaraná (Upton Tea Imports, 2024).
Dos Guaranis às Missões Jesuíticas
Tomar erva-mate é considerado herança direta dos guaranis, que viviam nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai e tinham a planta como alimento, como moeda de troca em certos contextos e como objeto de culto (National Geographic Brasil, 2023). Antes da conquista espanhola, o consumo tinha função ritual, sob controle dos pajés (Mayer, 2019).
A origem da bomba, o canudo com filtro do chimarrão, divide as fontes. Uma versão corrente a liga ao tacuapi, canudo de bambu perfurado com que os guaranis bebiam a infusão preparada em cabaças (National Geographic Brasil, 2023). O pesquisador Ricardo da Silva Mayer, depois de revisar relatos de jesuítas e viajantes, sobretudo do século 18, propõe outra leitura, em que o jeito atual de beber o mate seria fruto de uma hibridação entre tradições indígenas e soluções dos colonizadores (Mayer, 2019).
Os jesuítas tentaram proibir o consumo entre os indígenas no século 17, mas recuaram por volta de 1630, e a erva virou uma das principais atividades econômicas das missões (National Geographic Brasil, 2023). Os missionários também passaram a cultivar ervais perto das reduções, mas a data dos primeiros plantios varia conforme o estudo, de 1610 a 1660 (Vegro, 1994; Mayer, 2019). O comércio deu às missões um quase monopólio nos mercados de Assunção, Buenos Aires e Montevidéu e barateou a bebida nas colônias espanholas, até que a expulsão dos jesuítas, decretada em 1767 e executada em 1768, devolveu a atividade ao extrativismo (Vegro, 1994; Museu das Missões, s.d.).
Chimarrão e Tereré

Da mesma folha nascem dois rituais. O chimarrão, comum no Sul do Brasil e no Uruguai, é preparado com água quente, por volta de 70 °C, numa cuia feita de porongo ou do fruto da cuieira e tomado com a bomba. Já o tereré, popular no Paraguai e em Mato Grosso do Sul, leva água fria, erva moída mais grossa e, muitas vezes, hortelã e limão, e é servido na guampa, recipiente que costuma ser de chifre (Band, 2025). O nome vem do guarani e significa “mate de água fria”, e no caso sul-mato-grossense a influência paraguaia chegou sobretudo pela fronteira entre Ponta Porã e Pedro Juan Caballero (Lima; Pereira; Barros, 2024).
Patrimônio e Economia
Em 2020, a Unesco inscreveu na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade as práticas e saberes do tereré na cultura Pohã Ñana, bebida ancestral guarani do Paraguai, a partir de candidatura paraguaia, o que significa que o título é do tereré paraguaio, e não do chimarrão (Unesco, 2020). No Brasil, o Rio Grande do Sul registrou em junho de 2023 seu primeiro patrimônio cultural imaterial, o Sistema Cultural e Socioambiental da Erva-Mate Tradicional (Tkatch, 2023), e no mesmo mês Mato Grosso do Sul declarou o tereré patrimônio cultural e imaterial do estado (Rosel, 2023).
Na economia, a extração de erva-mate nativa rendeu R$ 589,6 milhões em 2023, segundo maior valor do extrativismo vegetal não madeireiro, atrás do açaí, com 87% do volume no Paraná, embora o IBGE ressalve que os maiores volumes vêm hoje de lavouras cultivadas, medidas em outra pesquisa (IBGE, 2024). Em 2019, o Brasil era o maior produtor mundial, mas a Argentina liderava as exportações em valor, já que a maior parte da erva brasileira fica no mercado interno (Favaretto et al., 2023).
Da Folha à Xícara com a Curadoria Natublend
A curadoria da Natublend reúne quinze blends autorais batizados com nomes de divindades da mitologia greco-romana: Apollo, Ares, Athena, Aurora, Bacchus, Epione, Gaia, Harmonia, Hermes, Hestia, Hypnos, Iaso, Salus, Venus e Zeus. Os nomes são uma escolha de identidade da marca e não têm relação histórica com a bebida, que gregos e romanos não conheceram e que só chegou à Europa com as navegações dos séculos 16 e 17. Cada um parte de um tema e de um momento do dia, com proposta sensorial própria.

Coerente com a distinção entre chá e infusão, a linha reúne as duas famílias de bebida. Parte dos blends leva folhas de Camellia sinensis e é chá no sentido técnico: o Athena tem base de chá preto, com alecrim, cravo e erva-doce (Pimpinella anisum), e o Ares e o Aurora partem do chá branco, o primeiro com cravo, gengibre e hortelã-pimenta, o segundo com camomila, hibisco e jasmim. Outros dispensam a folha de chá e são infusões, como o Harmonia, com capim-limão, erva-cidreira (Melissa officinalis), hortelã-pimenta e jasmim, o Hypnos, com camomila, erva-cidreira, framboesa e lavanda, e o Zeus, de perfil mentolado, com camomila, capim-limão, hortelã-pimenta e jasmim.
O propósito de cada blend é uma intenção de uso, e não uma promessa de efeito. O Athena, encorpado pelo chá preto, foi pensado para acompanhar as horas de estudo e trabalho, o Hestia para a pausa depois das refeições e o Hypnos, sem folha de chá na composição, para o ritual do fim do dia. A coleção completa, com a composição de cada blend, está na página de chás e infusões da Natublend.
Perguntas Frequentes
O Chá Verde e o Chá Preto Vêm da Mesma Planta?
Sim. Os dois, assim como os chás amarelo, branco, escuro e oolong, vêm da Camellia sinensis, e o que muda é o processamento, sobretudo o grau de oxidação (ISO, 2023; Wong et al., 2022).
Camomila É Chá?
No uso cotidiano, sim. Pelo critério técnico da norma ISO 20715:2023, não, porque a camomila (Matricaria chamomilla) não vem da Camellia sinensis e é, portanto, uma infusão (ISO, 2023; Kew, 2026a).
O Imperador Shennong Descobriu o Chá?
É uma lenda. Não há evidência de que Shennong tenha existido, e um dos registros físicos mais antigos do chá, as folhas do mausoléu do imperador Jing, da dinastia Han, tem cerca de 2.100 anos (Mair, 2016; Lu et al., 2016).
Catarina de Bragança Levou o Chá para a Inglaterra?
Não. Samuel Pepys anotou em seu diário uma xícara de chá em 1660, dois anos antes da chegada de Catarina, cujo papel, segundo a associação britânica do setor, foi ajudar a pôr a bebida na moda da corte, ponto que a historiografia ainda debate (UKTIA, 2026a; Flor, 2021).
O Brasil Produz Chá de Verdade?
Produz, em pequena escala. A produção comercial de Camellia sinensis está concentrada em poucas famílias de origem japonesa no interior paulista, com destaque para o Vale do Ribeira, e soma cerca de 218 hectares (Band, 2024).
Erva-Mate É Chá?
Tecnicamente, não. A erva-mate (Ilex paraguariensis) é uma infusão de ervas que contém cafeína, como o guaraná (Kew, 2026f; Upton Tea Imports, 2024).
Referências
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Estudos Científicos Peer-Reviewed (3)
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- PMC1925 WONG, M.; SIRISENA, S.; NG, K. Phytochemical profile of differently processed tea: A review. Journal of Food Science, v. 87, n. 5, p. 1925-1942, 2022. DOI 10.1111/1750-3841.16137. Disponível em: pubmed.ncbi.nlm.nih.gov.
- DOI2000 FAVARETTO, Leticia; FAVARETTO, Juliana; LISBINSKI, Fernanda Cigainski; CORONEL, Daniel Arruda. Desempenho dos principais estados brasileiros exportadores de erva-mate (2000-2020). Gestão & Regionalidade, v. 39, e20237824, 2023. Disponível em: doi.org.
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